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A fila do gargarejo

Martha Medeiros

Somos todos atores. Quando saímos de casa para ir ao teatro, nós sabemos de cor o nosso papel: precisamos nos comportar como espectadores civilizados.

Tenho muitos amigos que fazem teatro. Já tive crônicas minhas adaptadas para teatro. Sou fã de teatro. Gosto de textos leves e densos, curtos e longos, nacionais e importados, desde que bons. Só não gosto de uma coisa: da tendência, em comédias, de os atores fazerem brincadeiras com o público, para “interagir”. Tudo bem, eles ensaiam meses, ganham uma merreca, merecem se divertir também, e nada melhor do que fazer isso botando a plateia pra pagar mico. Mas quem recorre a esse expediente deveria deixar uma unidade do Ecco Salva de plantão na porta, pois o risco de ataque cardíaco entre os espectadores mais conservadores é alto. Espectadora conservadora – tá falando com ela mesma.

Quando o ator ou atriz desce do palco e começa a caminhar pelo corredor eu imediatamente localizo a saída de emergência. Lá se foi minha paz, meu momento de relaxamento e lazer – vira suplício. Geralmente os eleitos estão na primeira fila. Quem mandou querer ver tudo de pertinho? Por essas e outras, sento da fila F pra trás.

Ah, mas é tudo tão divertido, vai dizer que não? Claro, eu também morro de rir, quá, quá, quá, rio histericamente, de tanta felicidade por ter escapado do vexame.

Não é um vexame? Tá bom, não é um vexame. Mas é tenso. Uma vez assisti a uma peça em que a atriz principal desancava uma criatura sentada na primeira fila. Chamava ela, aos gritos, de vagabunda, sem-vergonha, ordinária. A criatura em questão estava “desempenhando” o papel de uma arqui-inimiga da personagem – só que não foi avisada antes. Bom, a mulher era tão humilhada durante o espetáculo que, no final da peça, quando os atores voltavam ao palco para agradecer os aplausos, traziam flores pra a coitada, como um gentil pedido de desculpas. Eu acho que ela merecia era ganhar um Molière por ter suportado aquela dissecação pública sem chorar.

Somos todos atores. Quando saímos de casa para ira ao teatro, a gente sabe de cor nosso papel. Qual seja: o de um ser civilizado que vai chegar antes de o espetáculo começar, não vai esfaquear o flanelinha como gostaria, vai sentar no local marcado, vai desligar o celular, vai rir quando for pra rir, não vai vaiar quando estiver odiando, vai aplaudir no final e, quiçá, aplaudir de pé, porque todo mundo costuma levantar ao seu redor e é chato ser o único a ficar sentado. Pois bem: quando o ator saí do palco e vem até nós, ele esculhamba com esta marcação, nos obriga a improvisar. Não acho boa ideia. Um dia alguém da plateia também pode se sentir no direito de subir no palco de surpresa. Para interagir, ora.


Domingo, 2 de maio de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.